Uma terrível inundação provocada pelo transbordamento do rio Ródano submergiu a cidade de Avinhão e cobriu a capela dos Penitentes Cinzentos com mais de seis pés de água. Temendo a destruição do Santíssimo Sacramento que estava exposto, dois membros da irmandade usaram um barco para resgatá-lo. Ao entrarem no templo, testemunharam as águas perfeitamente divididas em duas paredes sólidas, mantendo o altar e o relicário completamente secos.
As raízes históricas e espirituais do Milagre Eucarístico de Avinhão, na França, remontam à Capela da Santa Cruz, que servia como sede oficial para a antiga e piedosa Irmandade dos 'Penitentes Grigi' (ou Penitentes Cinzentos). A existência dessa congregação associava-se ao reinado de Luís VIII, que em 14 de setembro de 1226 instituiu um ato solene de reparação contra os erros das heresias albigenses, que atacavam a presença real de Jesus na Eucaristia. Séculos mais tarde, em 30 de novembro de 1433, a pequena capela mantinha o Santíssimo Sacramento solenemente exposto no altar-mor para a adoração pública e contínua dos cidadãos locais, alheios à tempestade que se formava nos arredores da cidade.
Após vários dias consecutivos de chuvas torrenciais de proporções catastróficas, o leito do volumoso rio Ródano transbordou completamente, invadindo os muros e provocando uma inundação devastadora em toda a extensão de Avinhão. No meio do caos, da correria e do desespero da população que abandonava suas casas, dois oficiais e cabos da Irmandade, chamados Armand e Jehan de Pouzilhac-Farure, lembraram-se com horror de que Jesus Eucarístico havia permanecido exposto e desprotegido no altar da capela. Demonstrando imensa coragem, os dois homens conseguiram obter uma pequena barca de madeira e começaram a remar contra a forte correnteza das águas lamacentas, enfrentando graves riscos para alcançar o templo e salvar o relicário.
Ao aportarem junto à fachada e conseguirem abrir as pesadas grades de ferro e as portas de madeira da igreja, Armand e Jehan depararam-se com um espetáculo visual absolutamente inacreditável que desafiava todas as leis físicas da hidrodinâmica. A água da inundação já havia acumulado e ultrapassado a impressionante altura de quase seis pés no interior do recinto litúrgico, cobrindo bancos e colunas. Contudo, a massa líquida havia se divisão de forma perfeitamente simétrica para o lado direito e para o lado esquerdo do presbitério, erguendo-se verticalmente como dois muros ou barreiras transparentes de contenção. No meio desse corredor seco e protegido, a mesa do altar e o Ostensório permaneciam intactos e secos.
Aterrorizados e maravilhados diante da reedição do milagre bíblico da passagem do Mar Vermelho, os dois penitentes constataram que nem mesmo as toalhas de linho do altar haviam recebido uma única gota de umidade. A notícia do prodígio propagou-se com velocidade atômica pela região e, assim que as águas baixaram, uma multidão imensa composta por camponeses, nobres e altas autoridades eclesiásticas acorreu ao sítio entoando hinos litúrgicos. Centenas de pessoas assinaram o relatório oficial do evento, que ainda hoje encontra-se preservado na capela. Como ação de graças, a Irmandade instituiu a obrigação perpétua de celebrar o aniversário do prodígio todo dia 30 de novembro com o canto do 'Cantemos ao Senhor' (o cântico de Moisés em Êxodo), tradição que os irmãos mantêm viva até o presente século.
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Eu sou o pão vivo que desceu do céu; quem deste pão comer, viverá eternamente.
João 6, 51
